Bolhas Ideológicas e o Afastamento da Personalidade.


Samira Santana de Almeida¹
Brasília, janeiro de 2025.
A personalidade é a expressão do espírito no mundo e, embora ela possa ser aprimorada por meio do conhecimento e da experiência, ela também traz consigo um aspecto substancial, que está relacionado ao caráter de cada um. Quando a pessoa deturpa seu caráter, ela se priva do cumprimento de seu dever, ficando à mercê de entendimentos e vontades que não a fazem trilhar o caminho de Deus.
À medida que encontramos bases sólidas para que as raízes das virtudes possam se firmar, por meio do aprimoramento do caráter, nossa personalidade frutifica em bons hábitos que edificam nossa vida. A consequência desse processo é a busca por uma fortaleza que nos blinde em relação àquilo que possa nos prejudicar e destruir tudo o que construímos. Essa redoma que criamos em volta de nós mesmos pode ser chamada de bolha e seria um equívoco considerar as bolhas como algo inerentemente ruim. A questão é: em qual bolha você quer estar?
A bolha pode ser uma ilusão que estamos vivendo, mas pode ser também um porto seguro que podemos criar para nós mesmos e para as pessoas que amamos. Estar no mundo, em contato direto, sem o intermédio de categorias mentais equivocadas que amparam nossas interações, é um desafio diário. Para tanto, havemos de buscar a limpeza constante de nossas lentes, para poder enxergar as coisas como elas são, com o mínimo de projeção ideológica possível. Afinal, qualquer que seja a ideologia que a pessoa possa estar acreditando, a vista dela se torna embaçada, ou mesmo cega, para os aspectos mais profundos da realidade.
A ideologia faz com que uma ideia seja superior à própria realidade que se apresenta diante da pessoa e, para que ela perceba que está tomada por uma ideia e não está agindo conforme a percepção verdadeira daquilo que a rodeia, é quando alguma transformação se faz necessária para que ela possa entrar no eixo e trilhar o melhor caminho para sua própria evolução. Alguns chamam de conversão, outros de revolução interna. Poderia ser um despertar da consciência, dentre tantos que vivemos nessa vida.
¹ Samira possui bacharelado e licenciatura em Filosofia, pelo Instituto de Humanas – UnB (2011) e é Especialista (2013) e Mestre em Bioética, pela Faculdade de Saúde – UnB (2015).
O importante é que quando uma mudança de perspectiva acontece, o prisma da visão se renova. As lentes pelas quais enxergamos o mundo ficam mais translúcidas, permitindo que a realidade seja vista em sua manifestação integral.
Os pontos de vista podem se diferenciar, mas a verdade não é relativa, ela é absoluta. Mesmo que hajam múltiplos ângulos para se enxergar um objeto, a verdade é o crivo universal que permite que a realidade não se perca nas subjetividades. A verdade, sobretudo, é objetiva e é verificável, embora possa ser relativizada e até negada por meio de mecanismos de controle nas engrenagens da engenharia social, para efeito de dominação de corpos e mentes, criando ilusões conceituais que afastam as pessoas de uma visão objetiva das coisas.
A conversão verdadeira, por sua vez, é quando o sujeito percebe que a verdade vem do Alto e não do auto. Esse mesmo sujeito, que já não crê que o crivo humano é absoluto, olha para cima e se confronta com algo que é superior a ele. Algo que o arrebata: a lei divina e universal - que só é perceptível por meio da transcendência do ego - que faz com que a identificação com os “ismos” não seja algo tão inconsciente. Reconhecendo a presença divina na realidade que nos cerca, por meio da aceitação da existência de Deus e seu domínio sobre a realidade, saímos do domínio da mente antropocêntrica. Esta mentalidade humanista, por sua vez, é arquitetada por aqueles mecanismos de controle social, que inoculam ideologias que afastam as pessoas delas mesmas, afastando-as, também, de Deus.
Chamo de “caminho do bem, sem Deus”, alguns desses ismos que estamos remando para limpar do nosso imaginário. O Iluminismo, o progressismo, o ateísmo, o vegetarianismo e etc. Tais ismos só foram possíveis com a promoção de um hiper-racionalismo desvinculado da percepção, da sensibilidade e do sentimento, que é uma ascensão do plano mental, desconectado da realidade por meio de gatilhos conceituais que visam emular virtudes que só existem na aparência, ou seja, na exterioridade e são, portanto, falsas virtudes. Esses gatilhos são entoados em filmes, músicas, jornais e livros, como uma orquestra amestrada por vozes que nos fazem crer que o coletivo é mais importante que o indivíduo.
Aqui entra a personalidade. Os integrantes da bolha ideológica subtraem de si mesmos sua singularidade em nome de um mote, de uma ideia projetada artificialmente na realidade, que supostamente beneficiaria uma maioria. Eis o problema da visão coletivista. Então, para fazer parte de qualquer panelinha laica ou multicolor, é preciso aniquilar a riqueza do ponto de vista individual, pervertendo a realidade por meio de um ideal que se projeta sobre a verdade.
A ideologia existe no plano mental e é projetada no mundo real, a fim de que a realidade se ajuste ao ideal. O correto seria o contrário, pois há que se partir da objetividade para a subjetividade, enquanto metodologia lógica para o entendimento da realidade, caso contrário, nós nos perdemos em um mar sem fronteiras, a divagar sem um rumo preciso, prontos para embarcar em qualquer canoa furada. Uma vez que a metafísica é algo intrínseco à física e está para além da física, há que se atribuir uma objetividade ao que chamamos de ideal. Já a ideologia, que se propõe como uma metafísica, mas não é, imprime o ideal no real e é daí que surge a dissonância entre o mundo real e o mundo idealizado.
Cada ser humano traz em si mesmo uma multiplicidade de características que não podem ser niveladas por meio de uma cartilha do politicamente correto. O “eu sou vegetariano, então, todos devem ser também” é tão autoritário quanto “eu tenho uma religião, então, todos deveriam seguir a minha religião”.
Até Aristóteles já havia se dado conta do perigo de uma premissa universal afirmativa, ainda mais quando ela vem acompanhada de uma deontologia kantiana (2). O senso de dever não pode advir de uma premissa falsa, se não a consequência disso pode ser desastrosa. Os movimentos que se dizem revolucionários, seja da luta de classes, do empoderamento das mulheres e do conceito de gênero como algo construído culturalmente, dentre outros, insistem em emplacar uma lógica racional em algo que já nasce fora da lógica. São generalizações que, na verdade, são idealizações que suplantam a própria dinâmica dialética da realidade.
Nessa querela, a individualidade perde seu posto para o coletivismo e este, por sua vez, é um projeto de poder travestido de justiça social. A autonomia perde seu posto para uma docilidade subserviente, que mina a capacidade de reconhecer as próprias vontades e visões de mundo, numa espiral de silêncio e de cegueira que envolve a pessoa nessa promessa de pertencimento a um grupo identitário, ou seja, ideológico.
² A ética deontológica do filósofo Immanuel Kant é a ética do dever, que se baseia na racionalidade universal para determinar a ação moral.
A partir do momento que a pessoa desperta do sono dogmático (3) em que ela estivera submergida, a personalidade dela pode irromper, fazendo com que o construto ideológico se desmorone diante de seus próprios olhos. O mundo real, que sempre esteve presente, mas era suplantado pela ideologia, se desvela e faz com que a pessoa possa tomar as rédeas da própria vida. Eis a verdadeira conversão.
Concluindo, para pertencer a qualquer bolha ideológica, há que se abrir mão da própria personalidade, esta que não só pensa o mundo, mas está inserida no mundo, com suas singularidades e divergências internas, que necessitam ser ajustadas a todo instante, por meio do autoexame. Afinal, o que deveria unir as pessoas é o propósito de vida que cada um carrega dentro de si, suas virtudes e valores e não a repetição de premissas prontas que trazem, dentro de si mesmas, muitas mentiras e poucas verdades.
Ter um ideal não é o problema. A confusão está em querer impor um padrão comportamental que gera um rebanho de zumbis que perderam a capacidade de enxergar o mundo, por terem suas personalidades dizimadas. Há que se resgatar a auto responsabilidade, percebendo as reais necessidades que nós, personas enquanto indivíduos, trazemos conosco para, a partir daí, agirmos da melhor maneira possível, auxiliando verdadeiramente a quem precisa, dentro de nossas verdadeiras capacidades.
³ O sono dogmático é uma expressão usada pelo Kant para descrever a sua transformação filosófica após compreender o papel fundamental da experiência na compreensão do universo, que antes ele julgava ser passível de ser apreendido apenas pela razão humana.
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