Sigmund Freud & Gabriel García Márquez: Um conto de dois Sófocles.

"Que perversão

não se manifesta em nós?

Seu pai matou seu pai,

e depois lavrou o útero de sua mãe

- onde ele próprio nasceu –

concebendo-o onde

ele também foi concebido.”

Édipo Rei, Sófocles


“Então Deus os abençoou e lhes disse:

Frutificai e multiplicai-vos;”

Gênesis, 1:28


a man riding a skateboard down the side of a ramp
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Autor: Gustavo Bernardino

Uma renascença, como mencionado, inicia-se sempre por um resgate de fontes antigas. Este capítulo visa a realizar exatamente isso. É uma tarefa importante neste século compreender a verdadeira mensagem no mito de Édipo Rei, de Sófocles.

Tomamos um caminho muito diferente do de Freud, empreendendo uma reinterpretação da obra, a nosso ver mais ajustada, a fim de defender-nos, definitivamente, das falsas construções morais de nosso tempo.


A razão pela qual Freud sentiu-se especialmente atraído por Édipo não é nada difícil de compreender. A cultura grega nos atrai tanto em tempo de progresso quanto de decadência, e isto é apenas característica própria dos clássicos: eles contêm a verdade crua.

Mostram a vida humana concreta, em conjunto e sem exclusão, apresentando um código mitológico disposto em letras simples e luminosas, que é quase como se dissessem: eis aqui a própria vida.

Quando lemos Homero, por exemplo, apesar dos elementos fantasiosos, divindades que intervêm no campo de batalha, acabamos por reconhecer que Homero não mente.

"Aqui está a realidade nua entre a lama terrestre e as estrelas celestes, repetindo-se dia após dia, idade após idade, e as gerações que vêm e vão como as folhas que caem das árvores", escreveu o crítico literário austríaco-brasileiro Otto Maria Carpeaux, mais um dos vienenses obrigado a fugir para o Brasil devido aos horrores da Segunda Guerra Mundial.

Todas as questões de filologia e arqueologia sobre Homero são de menor importância - ele considerou -, o que nos resta a investigar é apenas se Ilíada e Odisseia são "veneráveis monumentos ou forças vivas":

"A aparente monotonia destas repetições parece nos dizer: eis que a vida humana é sempre assim, é eternamente assim; e esse aspecto das coisas sub specie aeternitatis dignifica tudo sem nunca desfigurar a verdade".

(...) a objetividade dos poemas é tão grande que o leitor esquece que lê poesia. A trama dos dois épicos é como a própria natureza humana: ela não foi inventada; tudo deveria ter acontecido desta maneira. Não é necessário explicar ou interpretar nada.”

Entretanto, para penetrar na verdade, não basta que a própria realidade seja clara, mas também que os olhos da consciência, semelhantes a lentes, não estejam embaçados. Nesses termos, creio, há um homem que penetrou mais profundamente nessa realidade grega com óculos mais limpos do que os de Freud, principalmente no que diz respeito ao trabalho de Sófocles. Seu nome é Gabriel García Márquez, um romancista.

Ambos eram muito atraídos por "Édipo", mas com uma pequena diferença: um viveu na época de ouro da Áustria, o outro na violenta Colômbia. Márquez penetrou no trabalho de Sófocles de forma absolutamente incomparável. Sua obra literária Cien años de soleda (Cem anos de solidão) carrega em si a verdadeira genialidade de Sófocles.

Márquez nasceu filho de Colombo e se transformou em herdeiro legítimo dos gregos, e agora habita como cidadão da Hélade espiritual do Ocidente, uma luz brilhante refletida a partir da caótica formação da América Latina.

A tragédia de Sófocles cunhou profundamente a mente e a cosmovisão de Márquez.

Suas leituras foram tão sérias e intensas que ele gravou Édipo Rei integralmente na memória. Diferente do psicanalista de Viena, Márquez não estava interessado em extrair dali uma teoria global que explicasse o comportamento humano, mas em sentir profundamente o caos tebano e transcrevê-lo para o nosso mundo moderno.

Cem Anos de Solidão retrata a família dos Buendía, na qual os membros impunham pouquíssimos limites às suas paixões. Gerações dos Buendía iam e vinham na pequena aldeia fictícia de Macondo.

No rastro de infortúnios dos Buendía, verificamos excessos e ausência de restrição moral por todas as gerações: José Arcadio, pertencente à segunda geração dos Buendía, abandona esposa e filho para viajar pelo mundo com ciganos, deixando seu dever de pai de lado.

Seu irmão, Coronel Aureliano Buendía, teve dezessete filhos com dezessete mulheres diferentes ao longo de trinta e duas guerras civis, e todos os seus filhos, exceto um, foram assassinados. Pilar Ternera era a mulher que servia sexualmente aos dois irmãos e deu luz a filhos bastardos, sendo um deles Aureliano José, que desejava sexualmente sua

¹ Um possível entendimento do que significa “colombiano”.

² Cabello Pino, M. (2004). Edipo alcalde: Sófocles a través de los ojos de Gabriel García Márquez. Tradução livre.

Tia de primeiro grau, Amaranta, e que, não tivesse antes morrido, provavelmente levaria a cabo a consumação de seu desejo.

Paixão selvagem, escapadelas sexuais, incesto, morte, guerras, doenças, abandono e pragas. E, passados cem anos, a família dos Buendía se encontra com seu destino: foi extinta para sempre da terra, com sua última cria provinda de um incesto. A vida que começa com os Buendía termina pelas mãos dos Buendía; sua linhagem se extinguiu no meio de relações violentas, envolvidas num inferno auto-referenciador, certo tipo de doença narcisista crônica, de onde não ultrapassaram o próprio círculo familiar: a família morreu em si mesma por ignorar a lei da multiplicação.

Freud viu o complexo de Édipo no início da vida, inerente à psique de uma criança, enquanto Márquez o viu no final da vida, arraigado numa sociedade corrupta, próxima da extinção. Édipo Rei, como retratado pela visão de Márquez, não revela princípio algum, mas mostra um contexto social e familiar de autodestruição.

O incesto entre Amaranta Úrsula e Aureliano II, que tinham uma relação consanguínea de tia e sobrinho, fecha o círculo diabólico dos Buendía, produzindo o último membro da família, nascido com rabo de porco.

Mas alguém poderia, ainda inocentemente, afirmar: o incesto entre Édipo e Jocasta não ocorreu de forma consciente e intencional, assim como Amaranta e Aureliano não sabiam que eram parentes consanguíneos; eles foram vítimas da coincidência e do destino, e é justamente por isto que Édipo Rei é tomado como uma tragédia.

Alas, é justamente por isso, igualmente, que a perda de memória e da consciência é um tema constante nas obras de Márquez e que - isto, sim, é trágico - marcou também o final da vida do autor, como se sua mensagem estivesse escrita em seu próprio código genético.

Amaranta e Aureliano II não estavam conscientes de sua relação consanguínea, assim como Édipo e sua mãe Jocasta não o estavam. Esse ponto é claro. Mas os elos da corrente familiar já estavam há muito quebrados, a linhagem sanguínea estava rompida, e não havia mais memória que refizesse a genealogia familiar.

Amaranta e Aureliano II moravam na mesma casa e não sabiam que eram parentes de primeiro grau, pois, no meio do caos e da fragmentação, perderam-se todas as referências disponíveis.

Essa falta de memória e de cuidado espalha-se no nível individual e social, pois em Macondo "a situação pública era tão incerta na época que ninguém tinha o espírito para lidar com escândalos particulares". A inconsciência que daí resulta é, nada mais, que consequência de decisões passadas, que levaram à desordem última.

³ Marquez, Gabriel Garcia. Cien Anos de Soledad. Tradução livre.

Freud acreditava que "a chave para a tragédia" de Édipo estavam contidas nas seguintes linhas: "É verdade que em seus sonhos vários homens dormiram com as suas próprias mães, mas alguém que ignora tudo isto viverá mais facilmente."

Mas Freud não compreendeu do que o verdadeiro complexo de Édipo trata: a perda da consciência e da memória. O nome Édipo advém do grego antigo Oedipus, que é um jogo de palavras significando "conhecimento dos próprios pés", que evoca o fato de que Édipo não conhece suas raízes, sua linhagem sanguínea desfez-se no esquecimento.

Esquecer as raízes, os princípios, as referências e as bases é uma característica das sociedades prósperas que estão iniciando um processo de decadência: as pessoas tendem a esquecer o que tornou seu progresso possível e começam a tomar a batalha como já ganha, vendo o crescimento e o progresso como a única possibilidade.

Vimos as magníficas civilizações da Grécia e de Roma, entre outras, arruinarem-se quando os homens já não tinham restrições e códigos que os orientassem. Seus líderes sempre podiam ser mais ricos, mais inteligentes e senhores de todas as coisas e de todos os povos. Quando estão todos no topo da maré, muitos esquecem que ela inevitavelmente quebra na praia.

Mas em Tebas e na fictícia Macondo, o processo de decadência já estava avançado e em plena marcha rumo à extinção; já ultrapassava os primeiros sinais de ingratidão com os antepassados; a família das personagens já estava tão alquebrada que mãe, pai, tia, filho, sobrinho não se reconheciam mais, todos perdidos em sua própria existência, chafurdados na inconsciência, ignorantes de suas verdadeiras origens e entregues a impulsos primevos.

Quando Édipo descobre que tivera relações sexuais com a própria mãe, ele cega a si mesmo. Como já vimos, não há maior órgão para representar a consciência do que a visão. Édipo não cortou a garganta nem se enforcou: perfurou os olhos. Não se sentia mais digno da visão e da luz. Édipo era forte e inteligente, mas a existência lhe era claudicante, pois a substância mesma da vida humana, a consciência e a memória, estavam ausentes.

Édipo era tão brilhante e prático que decifrou o enigma da Esfinge, o monstro mitológico, e se tornou o grande Rei de Tebas. Sua força era tamanha que matou uma caravana inteira cheia de homens, tudo feito com seu próprio poder e mérito.

Mas a razão não é suficiente; o homem pode ser absolutamente brilhante, mas, se não possuir consciência e clareza de sua existência concreta, se sua cabeça não está clara sobre suas origens, propósitos e destino, a razão pode se tornar inútil, ou, pior do que inútil, absolutamente perigosa.

⁴ Freud, Sigmund.Traumdeutung. Tradução livre

⁵ Sophocles. Oedipus the King. Translation Ian Johnston from Malaspina University-College.

⁶ Idem 5

⁷ Ortega y Gasset, José. La Rebelion de las Masas.

Quando Édipo se gaba de sua inteligência, o profeta Teiresias lhe responde: "Essa qualidade agora será a tua ruína".

Teiresias é o profeta cego que busca revelar a Édipo que ele mesmo é o responsável pela morte de seu pai. Mas Édipo procura o assassino por toda parte sem jamais suspeitar de si, acusa seus amigos e cria uma série de problemas e tramas, procurando furiosamente alguém que lhe dê brecha para que ele descarregue o peso da existência, o seu fardo, em forma de punição a terceiros.

Mas Teiresias continua relembrando-o: "Eu digo que você mesmo é o homem que procuras". Teiresias representa a consciência que transcende a visão humana, que tudo sabe e tudo vê. Ele é cego, mas sabe tudo, e Édipo vê, mas não sabe nada. Teiresias, então, adverte-o:

"(...) tens tua visão, e não vê como és miserável, ou onde moras, ou com quem compartilha tua casa. Conheces a família de onde vem? Sem esse conhecimento, te tornaste o inimigo de tua própria espécie".

Freud escreve em um de seus mais famosos livros, Traumdeutung, que "a todos nós, talvez, foi imposto que direcionemos o primeiro impulso sexual à nossa mãe e o primeiro desejo violento contra o nosso pai". Destaquei a palavra “talvez” propositadamente. Como poderia alguém formular uma teoria tão calamitosa construindo-a sobre um "talvez"?

Mesmo os animais e as plantas têm mecanismos para evitar incesto ou relações reprodutivas por consanguinidade, defesa natural e coletiva que garante a saudável multiplicação da espécie.

O incesto, portanto, não pode ser parte de um instinto natural manifestado em um traço psicológico, mas, na verdade, algo diametralmente oposto: a violação de um princípio natural. Na obra de Sófocles, Jocasta nem sequer afirma que todo homem sonhou ter relações com a mãe, mas que vários o fizeram. Um princípio firme e seguro não pode ser baseado em "muitos", nem em "talvez"; deve possuir, da maneira que demonstramos, caráter universal e não-contraditório, resistente ao tempo.

Desta feita, o que se revela no homem, como traço universal, é a sua consciência, esteja ela em estágio primitivo ou esclarecido.

A capacidade de receber contraditórios, examiná-los e optar por um caminho.

Quantas culturas teremos que ainda afundar, quantas Sodomas e

⁸ Sophocles. Oedipus the King. Translation Ian Johnston from Malaspina University-College.

⁹ Idem 8.

¹⁰ Idem 8

¹¹ Freud, Sigmund.Traumdeutung. Tradução livre.

¹² O complexo de Freud formou-se aos poucos como teoria, no Traumdeutung possui caráter de especulação.

¹³ Anne Pusey, Marisa Wolf. Inbreeding avoidance in animals. Trends in Ecology & Evolution, Volume 11, Issue 5, 1996, Pages 201-206.

Gomorras ainda suportaremos, até que finalmente tenhamos consciência? Até que assumamos a consciência como o atributo que coroa o homem?

Mas Freud preferiu considerar o inconsciente como princípio orientador, tomando a consciência ao revés. Ele achou por bem separar a mente humana da luz e do conhecimento e associá-la preferencialmente à escuridão e à inconsciência, isto é, em vez de afirmar o que é superior no homem, prefere afirmar sua animalidade.

O próprio Freud admite que essa era sua intenção; revela prontamente ao que veio na entrada de seu livro Traumdeutung, traduzido como A Interpretação dos Sonhos.

A epígrafe diz: "Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo", um trecho da Eneida, de Virgílio, que significa "Se eu não puder dobrar os poderes acima, moverei o inferno por baixo". As teorias de Freud são uma espécie de anti-espelho, que revelam o aspecto negativo de tudo o que lhe cai defronte.

Freud foi vítima do verdadeiro complexo de Édipo: negou a consciência. Pode até ser que a tenha visto e considerado, mas não lhe conferiu o brilho que merece.

Édipo busca o culpado pelo assassinato em todos os lugares, e só compreende sua responsabilidade quando a vergonha lhe abate plenamente. E essa tendência foi transposta para a psicanálise.

Como explica o psiquiatra inglês, Theodore Darlrymple, sobre a psicanálise, com mais de décadas de experiência clínica em todo o mundo: "Eles atacam o próprio fundamento da humanidade de uma pessoa, seu caráter e personalidade, sua alma, em outras palavras. As doenças psicológicas minam a capacidade de refletir, pensar e decidir por si; elas tornam o ser humano, em graus, precisamente o que engenheiros sociais entusiastas acreditam que os humanos (outros, que não eles) são: organismos sem a capacidade de decidir por si".

A sociedade se tornaria inviável se negássemos toda a responsabilidade, colocando a culpa em causas profundas aninhadas em outras causas muito mais profundas que só podem ser encontradas, com sorte, em uma sessão de terapia de 10 anos.

Darlrymple utiliza um trecho significativo de Shakespeare para demonstrar, em efeito final, um dos perigos da psicologia moderna. Edmund, na obra Rei Lear, diz: “… uma admirável evasão de um cafetão: colocar seu temperamento, similar ao de um bode, sob a responsabilidade das estrelas!”

Édipo acusa Teiresias de teimosia, por ter colocado ele, o rei de Tebas, sob suspeita de assassinato, ao que o vidente responde-lhe: "Você culpa meu temperamento, mas não vê aquele que vive dentro de ti. Em vez disso, buscas o erro em mim".

¹⁴ Dalrymple, Theodore. Admirable Evasions: How Psychology Undermines Morality. Tradução livre.

¹⁵ Shakespeare, William. King Lear. Tradução livre.

¹⁶ Sophocles. Oedipus the King. Translation Ian Johnston from Malaspina University-College. Tradução livre.

Como é possível que Édipo seja retratado por Freud e Márquez de maneiras tão diferentes? Márquez viu o mito do vale e Freud do alto da maré. As sociedades não se tornam esquecidas e corrompidas em um único golpe. Como mencionado, Macondo e Tebas já tinham chegado ao fundo do poço para além do remédio, mas não é aí que se inicia a corrupção.

O esquecimento começa entre os ricos e prósperos, pois o ouro cintilante do presente ofusca a luz efêmera das batalhas passadas. Na prosperidade, uma almofada anestésica de segurança é construída ao nosso redor, e as consequências são sentidas com um certo atraso, como um colchão que absorve impacto.

Assim, uma cultura rica e próspera, como a de Viena no século XX, tinha todas as condições para que uma teoria como a do Édipo freudiano fosse aceita. A vida de um vienense de alta classe era magnífica e cheia de progresso, o último Prometeu desencadeado; nunca se sentiu o brilho divino tão intenso e belo na palma da mão, por isso não há problema em dizer: "as crianças têm, já arraigada, uma atração sexual por suas mães e uma vontade absoluta de matar seus pais".

E a reação seria naturalmente: "Claro! Por que não?” Poderia muito bem ser “coma um pouco mais de caviar". Que o apetite seja o teu mestre, pois todas as possibilidades estão nuas diante de nós. Pergunto-me se Freud, se nascido na Colômbia, teria postulado a mesma teoria.

O contexto em que Márquez escreveu, no entanto, não foi a Grécia, nem a Viena progressista de Freud, mas um cenário de violência, pobreza e caos na Colômbia. Marquez e Freud atribuíram diferentes significados e pesos à tragédia de Édipo. Como o próprio Marquez disse sobre sua fixação sobre o trabalho de Sófocles:

“Foi sua extraordinária semelhança com a situação colombiana. Então essa situação (a da sociedade de Tebas) não era como a de hoje, é claro, mas era muito semelhante; e, se arranhamos um pouco a superfície, não demoramos muito para descobrir que também é semelhante à situação de ontem, e antes de ontem e de todos os tempos (...)".

E Freud estava na era dourada da sociedade austríaca numa explosão de humanismo e grande progresso tecnológico. Viena estava realmente na sua: “(...) idade de ouro da segurança. Tudo na nossa monarquia austríaca de quase mil anos parecia estar fundado para sempre, e o próprio Estado parecia ser o garantidor supremo desta estabilidade.

Os direitos que concedeu aos cidadãos vienenses foram garantidos pelo Parlamento, pela representação livremente eleita do povo, e cada dever era estritamente delimitado. A nossa moeda, a Coroa Austríaca, transformou-se em genuínas peças de ouro, garantindo assim a sua imutabilidade.

Todos sabiam o quanto possuíam, ou ao quanto tinham direito, o que

¹⁷ Cabello Pino, M. (2004). Edipo alcalde: Sófocles a través de los ojos de Gabriel García Márquez. Tradução livre.

era permitido e o que era proibido. Tudo tinha sua norma, seu tamanho e peso específico (...) Tudo neste vasto reino era fixo e imóvel em seu próprio lugar e no mais alto onde antigos imperadores estavam”.

Não por acaso, poucos momentos depois, a guerra espalharia seu rastro de sangue pelo mundo ocidental. Todo esse belo humanismo abriria espaço para uma das experiências mais desumanas de toda a história do mundo do sol poente. E é precisamente este movimento de declínio que Sófocles retrata. Os líderes e intelectuais da Áustria enxergavam plenamente a verdade, eram ricos e prósperos e construíram um império monárquico dourado, tudo assentado na grande tradição de seu país.

Mas, por falta de cuidado e consciência, terminou precisamente como Teiresias descreveu em suas últimas palavras, ecoadas profeticamente, e advertindo a Édipo: "Ele será cego, embora agora possa ver. Ele será pobre, embora agora seja rico. Partirá para um país estrangeiro, e tateará o chão diante dele com uma vara."

E este é, de fato, o excerto chave do mito de Édipo. Stephan Zweig, um brilhante jornalista e intelectual, que escreveu o trecho acima sobre a idade de ouro em Viena, no livro Die Welt von Gestern (O Mundo de Ontem), foi mais um dos que partiram para um país estrangeiro, tateando seu futuro com uma vara.

Ele fugiu para o Brasil e revelou ao mundo como Viena, uma cidade muito sofisticada, com a história ocidental nas mãos e os grandes avanços da ciência à disposição, rapidamente transformou-se em um inferno do qual fugiu desesperadamente, para não ser impiedosamente massacrado em uma câmara de gás, para não ser engolido pelo refluxo da onda.

Viktor Frankl, a qualquer momento, seria pego enquanto esses cavalheiros inovavam o mundo humano a partir de suas torres de marfim, longe dali, pois muitos deles também tiveram que fugir.

O destino de Stefan Zweig, no entanto, não era o de sobrevivência como o de Frankl. Ele foi severamente afetado por seu passado obscuro em Viena.

Matou-se na cidade de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, em 1942. Não precisamos sequer ir tão longe, no Brasil, para ver a confusão que se abateu sobre o espírito europeu. Basta olhar dentro do próprio círculo de Freud:

“Nove dos primeiros psicanalistas vienenses, um em cada dezessete, suicidaram-se. As relações pessoais desses primeiros psicanalistas, aliás, não eram de tal ordem que se recomendassem a ninguém, consistindo, em grande parte, de maledicência, traição, inveja, denúncia às autoridades (i.e. a Freud), excomunhão e orgias.”

Zweig deixou uma nota sobre seu suicídio, clarificando suas razões

¹⁸ Zweig, Stephan. Die Welt von Gestern. Tradução livre.

¹⁹ Sophocles. Oedipus the King. Translation Ian Johnston from Malaspina University-College. Tradução livre.

²⁰ Dalrymple, Theodore. Admirable Evasions: How Psychology Undermines Morality (Kindle-Position208). Encounter Books. Kindle-Version.

para tal ato. Sua declaração é um alerta ao que ocorreu na Europa:

“Antes de deixar a vida, por minha própria vontade e com uma mente sã, sou impelido a cumprir um último dever: dar meus sinceros agradecimentos a este maravilhoso país do Brasil, que me deu, a mim e ao meu trabalho, um descanso tão bom e hospitaleiro.

Todos os dias aprendi a amar este país cada vez mais, e em nenhum lugar preferiria reconstruir minha vida a partir do zero, depois que o mundo da minha própria língua pereceu para mim e meu lar espiritual, a Europa, está destruindo a si mesmo. Mas depois do sexagésimo ano da minha vida, seriam necessárias forças especiais para recomeçar do zero.

E as minhas forças estão exaustas pelos longos anos de peregrinação sem um lar. Por isso, penso que seria melhor completar uma vida no tempo justo e numa postura ereta, como um homem cujo trabalho intelectual sempre foi a maior alegria, e a sua liberdade pessoal o maior bem da Terra.

Saúdo todos os meus amigos! Que eles ainda vejam o amanhecer desta longa noite! Eu, demasiado impaciente, vou à frente deles”.

A confusão espiritual da Europa não deixou Zweig até o momento da sua morte. E por acaso já deixara o antigo continente? Ou a longa noite europeia ainda perdura? No meio de tantos erros, a Europa é apanhada no medo de se corrigir, no medo de acabar em nova miríade de erros.

O continente, como todo o Ocidente, está flutuando, moralmente à deriva, em busca de uma quimera de solidez econômica, que revela confusão sobre o que é realmente prioritário. Tenta equilibrar os diversos grupos e interesses, mas a máquina de fragmentação continua a rodar, máquina cujo software foi desenvolvido no pensamento moderno europeu e é hoje difundido proficuamente pela tecnologia de informação americana.

As desigualdades foram reduzidas, a paz é mais duradoura, mas ainda nos falta um novo norte magnético.