Ucrânia x Rússia

Autor: Alexandre Tocchetto Pauperio

Data da publicação: Março de 2025.

O gosto pela geopolítica vem desde jovem, acompanhando os acontecimentos do mundo com interesse especial. Acho que isso tem relação com as histórias do meu bisavô Percílio, contadas por meu pai: sintonizava as rádios estrangeiras nas noites do Sul do Brasil, para poder saber o que estava acontecendo em “tempo real” na Europa. Outros tempos... Os movimentos estratégicos dos países e dos blocos de nações podem ser observados hoje pela internet, com acesso às informações quase ilimitado.

A grande dificuldade é saber o que é confiável, pois a desinformação cresceu de forma absurda, instalando-se no centro dos conflitos e dificultando a compreensão da realidade dos fatos. Vivemos uma guerra de narrativas constante, em diversos aspectos. É necessário acessar fontes múltiplas e canais de confiança para poder construir um entendimento mais próximo do real. Não há uma fonte única de informações que possa explicar tudo o que é preciso para entender a realidade material. No campo espiritual, felizes os “convidados para a ceia do Senhor”. Um os temas mais relevantes da atualidade é a Guerra Rússia-Ucrânia. O conflito na Ucrânia teve início em fevereiro de 2022 com o início da “operação especial” da Rússia nas zonas de fronteira entre os países, gerando preocupação mundial.

A instabilidade política na Ucrânia tem raízes históricas profundas, marcadas por sua posição geográfica estratégica entre o Ocidente e a Rússia, além de uma trajetória de domínio externo, lutas por autonomia e divisões internas. Historicamente, há uma separação cultural e política, com o Leste mais ligado à Rússia e o Oeste mais voltado à Europa. Com a Revolução Comunista de 1917, a Ucrânia tentou estabelecer independência, mas foi rapidamente absorvida em 1922 como República Socialista Soviética da Ucrânia. A dissolução da União Soviética em 1991 marcou a independência formal da Ucrânia, mas não o fim das tensões, por conta da dependência econômica da Rússia, especialmente no fornecimento de gás natural, e uma população dividida: cerca de 30% falam russo como língua principal, concentrados no Leste e Sul, enquanto o Oeste é mais nacionalista e pró-europeu.

Nos anos 1990 e 2000, a Ucrânia enfrentou crises econômicas e de corrupção. O ponto de inflexão moderno veio em novembro de 2013, com a suspensão do acordo de associação com a União Europeia (UE). Isso desencadeou os protestos do Euromaidan, em Kiev, exigindo integração europeia e a saída do presidente. Os protestos, inicialmente pacíficos, tornaram-se violentos, culminando na derrubada do governo em fevereiro de 2014 e gerando especulações sobre movimentos provocados.

A Rússia acusou interferência externa nessas medidas, principalmente do governo norte-americano, e respondeu anexando a Crimeia e apoiando separatistas pró-russos em Donetsk e Luhansk, região do Donbas, sob a justificativa de defender populações de maioria étnica russa, a partir de denúncias de violações de direitos humanos pela Ucrânia, com destaque para ações de grupos neonazistas atuantes na região. Os acordos firmados ao final da II Guerra Mundial previam a proibição de adesão da Ucrânia à OTAN e o impedimento de que bases militares fossem instaladas próximas à fronteira russa. Vladimir Putin justificou o início da operação especial pelos inúmeros avisos formais não respeitados pela Ucrânia e seus aliados da OTAN. Também existem acusações da Rússia de que a Ucrânia abrigava biolaboratórios financiados pelos EUA, com o desenvolvimento de patógenos para fins militares. Congressistas norte-americanos reforçam essa informação e denúncias foram formalizadas nas Nações Unidas. As notícias do andamento do conflito demonstram grandes variações de argumentos, caracterizando uma “guerra de narrativas”.

Por exemplo, em 2022, os gasodutos Nord Stream, que transportavam gás natural da Rússia à Alemanha, sofreram explosões, em ação que o Wall Street Journal diz ter sido articulada pelo governo ucraniano. Por outro lado, os russos são acusados pela Ucrânia pela interrupção de fornecimento de gás natural no mesmo caso, em lógica totalmente inversa.

Em quem acreditar? O presidente da Ucrânia, Vlodimir Zelensky, ex-comediante e acostumado à grande mídia, usa um tom dramático para viabilizar a atenção da mídia e dos governos, visando à atração de recursos e de armamentos para o país, circulando nos fóruns internacionais, alertando que a Rússia possui intenções de conquista de outros países pós-Ucrânia, que o futuro da Europa depende da vitória quase impossível da Ucrânia frente à poderosa Rússia. A Ucrânia já recebeu cerca de US$ 360 bilhões de dólares para o esforço de guerra, grande parte em equipamentos militares, armamento e munição. Há graves denúncias de desvios de recursos, sendo que o próprio Zelensky afirmou desconhecer o destino de U$ 100 bilhões.

As notícias de dificuldade de disponibilidade de militares pela Ucrânia são contundentes, com denúncias de recrutamento forçado de jovens, execução por deserção e restrições de formação adequada. As perdas de vidas no conflito são incertas. Certamente, o volume de mortes de ucranianos supera em muito as perdas russas, que inclusive utilizam exércitos contratados, os chamados mercenários. Mais recentemente, a Ucrânia intensificou o uso de drones para ataques no território russo, gerando danos com maior exposição na mídia ocidental.

Enquanto isso, Putin concentra esforços nos campos de batalha e na construção de parcerias estratégicas. Desde o início dos combates, a China se colocou ao lado da Rússia, junto com a Coréia do Norte e outros países do leste europeu. O poder bélico russo claramente ainda não foi utilizado em sua máxima força, administrando o uso de recursos, visando reduzir os danos na infraestrutura da Ucrânia, especialmente nas regiões com população de origem russa. A indústria de defesa da Rússia está operando em carga máxima, com desenvolvimento de novas tecnologias, a exemplo dos mísseis hipersônicos, já testados no conflito. O poderio militar russo é superior à toda OTAN, exceto EUA. Assim, podemos perceber a importância dos norte-americanos nesse conflito.

A discussão atual mais importante diz respeito à continuidade do suporte da poderosa OTAN à Ucrânia, em função da mudança de Governo nos EUA, com a chegada de Donald Trump, trazendo novas perspectivas sobre a questão. O governo norte-americano busca uma solução do conflito, a partir de conversas com Putin e Zelensky, mas ainda sem cessar-fogo ou acordo viável. O maior volume de recursos alocados pela OTAN no conflito tem origem nos EUA, durante o governo do Biden. Novo governo, novas regras. O cientista político filósofo russo Alexandr Dugin, influente pensador na era Putin, vem publicando análises sobre esse momento, que merecem atenção. Ele entende que “o diálogo Putin-Trump foi um ponto de virada civilizacional, anunciando o alvorecer de uma nova ordem de grande potência surgindo das ruínas da unipolaridade liberal, com Putin personificando a firmeza soberana, Trump rompendo com o jugo globalista e Zelensky se debatendo como o fantoche de sacrifício de um regime atlantista moribundo”.

Dugin está falando de uma nova arquitetura de relações internacionais, muito parecida com a análise de Olavo de Carvalho, entendendo a geopolítica global caminhando para os blocos da Eurásia, envolvendo Rússia, China e aliados regionais; da Nova Ordem Mundial, da qual Zelensky é um ator importante, com os aliados na OTAN; e o mundo muçulmano, em crescente desenvolvimento com a expansão na Europa, sem envolvimento no conflito da Ucrânia. Para complementar a análise de Olavo de Carvalho, fica pendente a inserção dos EUA de Trump nesse jogo, porque não está ligado a nenhum dos três grupos. Dugin está avaliando que EUA, China e Rússia lideram essa nova ordem tri-polar. Acompanhar essa Guerra na Ucrânia, com narrativas tão diversas e interesses tão poderosos é um desafio, que se modifica quase que diariamente. Mas também demonstra a complexidade do mundo atual e seus desafios de compreensão, em busca de fontes confiáveis. O que podemos ter certeza é que a geopolítica global cada vez mais é dependente das ações da Rússia, da China e dos EUA.

Quando olhamos para o Brasil, podemos perceber estas relações de poder acontecendo no dia a dia, principalmente com as iniciativas norte-americanas e chinesas, adquirindo ativos estratégicos, avançando na cooperação com governos, utilizando de barreiras tarifárias e negociando cada movimento como um avanço no espaço de poder. A presença independente e soberana do Brasil nesse jogo será determinante de nosso futuro.

Sobre o Autor: Alexandre Tocchetto Pauperio é Empresário, Administrador de Empresas, Mestre em Administração e Consultor Sênior em Estratégia, Inovação e Gestão.